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Saudável é comer o que te faz feliz

Escrito por master Ligado . Publicado em ARTIGOS

Comer bemDesvie dos cálculos de nutrientes, do proselitismo alimentar. Dê à alma e ao corpo o que eles pedem. Confie no que te alegra – e mais na intuição que no intelecto

Crônica de Maria Bitarello | Imagem: Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas, 1490-1510 (detalhe)
http://outraspalavras.net/

Meu pai cozinha muito bem. De origem italiana, comida pra ele tem que ser em abundância, com longo tempo de preparo – regada a cerveja no processo – e com carne. Se não tiver carne pra ele é lanche. E preparar uma refeição é sua maneira de demonstrar amor. Gosta de cozinhar em casa, na sua e na de amigos, cercado de pessoas queridas. Sempre adiando o fim da preparação, porque o preparo é que é o deleite, a sagração. A casa se enchendo de cheiros, a cozinha esquentando. E na hora de servir, ele próprio, muitas vezes, não come. Seu alimento é o afeto. Mas observa – e delicia-se e alimenta-se em observar – as primeiras bocadas dos convidados; filhas, amigos. E não o faz em silêncio, mas com expressões visuais e sonoras de prazer, pedindo comprovação verbal do gozo. Não te deixa sair da mesa sem repetir, e da casa, sem levar uma marmita pra mais tarde. Uma mistura de Minas com Itália e com ele próprio. É uma tradição, mas também uma singularidade sua.

Já eu não como muita carne. Não sou vegetariana, só não sou muito chegada. Não como com frequência e, quando como, não consigo ingerir muita quantidade. Minha digestão não é das melhores, e os filés espessos e sangrentos da preferência do meu pai estão no topo da lista de dificuldade de processamento pelo meu corpo. Não herdei isso dele, aparentemente. Não sinto falta da carne no cotidiano alimentar, mas meu corpo parece que sim, beirando uma anemia. Percebo que quanto menos dela eu como, mais difícil fica sua digestão, então mantenho as vísceras minimante habituadas pra que não percam a capacidade de fazê-lo. E ativo minhas enzimas gástricas pra que trabalhem ativamente em situações em que são requisitadas, como nos almoços do meu pai. Recebo e como, com gosto, o presente que é uma refeição preparada com afeto. Isso é o que importa de verdade. Não o número de calorias. Não vou virar uma mega-carnívora por causa disso, não é da minha natureza. E assim deixo-a estar.

Acho que o caminho é por aí. Cada corpo é de um jeito. Há quem não se dê bem com lactose, quem não curta muito açúcar, quem ame os alimentos amargos. Além disso, cada um também tem uma sensibilidade ao desconforto digestivo. Há quem não repare muito nisso; e também os com digestão de pato, os que mal comeram e já metabolizaram. E, no extremo oposto, os constipados. O ideal, penso eu, é o equilíbrio entre necessidade e vontade, cuidado e deleite. Sim, coma suas fibras diárias pra ter um intestino alegre e funcional. Coma de tudo um pouco. Mas também coma o que te faz feliz. Mesmo que as tabelas nutricionais do momento te digam o contrário. As tabelas mudam, assim como os paladares. O que te agrada hoje pode deixar de fazê-lo daqui uns anos, e o vilão nutricional um dia deixa de sê-lo. Então, cuidado com a alimentação, pero no mucho, senão fica tudo muito chato e com gosto de barrinha de cereal – uma coisinha insossa.

Sobretudo quando a alma pedir nutrientes, dê a ela o que ela pede. Carboidratos, por exemplo. Quase todo mundo gosta. É bom demais. Como viver sem pão-de-queijo, arroz e macarrão? Se você está de dieta e cortou os carboidratos por um tempo, ok. Mas depois – se não tiver intolerância a glúten –, volte pra luz. A gente não quer só comer, a gente quer prazer pra aliviar a dor. Carboidratos fazem carinho no seu espírito. Se, por outro lado, está tendo fissura em laranjas, se esbalde. Seu metabolismo está pedindo algum nutriente que ela tem. Pode ser chocolate também. Sobretudo no frio. Chocolate é um abraço de cacau. E, na dúvida, misture sua intuição a sua cultura e tradição. Aqui no Brasil, terra da mandioca – alimento milagroso que vira mil e uma coisas dependendo de como for preparada, base da alimentação dos povos indígenas, que vêm aperfeiçoando seu preparo há milhares de anos –, porque você deixaria de comer tapioca, farofa e mandioca?

E tão importante quanto a comida gostosa é sua preparação. Prepare sua comida pra você mesmo, sozinho. Pros amigos. Pros amores. Arrisque-se na cozinha e prolongue o prazer de cada refeição pensando nela antes, elaborando, indo à feira e ao mercado e, no fim de tudo, criando aquele maravilhoso mexidão com o que sobrou. Tenho pra mim que o mexidão é um dos maiores orgulhos da nossa culinária – a arte de fazer uma refeição com o que houver. Sou fã.

E é meio que isso. Não tem muito mistério. Mais vale a intuição que o intelecto. Ninguém sabe melhor que você o que te faz bem. O que te alegra, o que te deixa saciado, nutrido e sem flatulências. Confie no seu corpinho que ele sabe o que faz. Virar vegetariano, depois vegano, depois… (não sei o que vem), não é uma escala à qual você precisa se adequar pra ser uma pessoa melhor. Não ignoro a brutalidade do agronegócio, muito menos descarto a política por trás do que comemos. Só não acho que o proselitismo alimentar é o caminho. Comer de três em três horas, ou fazer só três refeições ao dia? Lacto-vegetarianismo ou dieta do paleolítico? Só comida crua ou massa em todas as refeições, como fazem os magrelos, saudáveis e longevos italianos? To drink or not to drink, that is the question.

É só você viajar que a resposta pra cada uma dessas perguntas será diferente. E aí quem vai te dizer o que te cai melhor? Confie na biologia. E no seu prazer. Escute sua natureza. Siga o que te faz salivar. E se viajar de fato, encontre suas respostas empiricamente. Coma de tudo. Sem frescura. Tudo bem se passar mal depois. Devore a vida. Não há melhor modo de aprender. Comer é uma forma de amar.

 

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