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O sucesso do plano para reviver a Guerra Fria nos Estados Unidos

Escrito por master Ligado . Publicado em ARTIGOS

VNO tema do momento para o establishment político-midiático nos EUA é a interferência do governo de Putin nas eleições presidenciais norte-americanas

Vicenç Navarro *
http://www.cartamaior.com.br/

Se você viajar aos Estados Unidos neste verão e se dedicar a ler alguns dos diários mais importantes do país, como o New York Times, o Washington Post e o Los Angeles Times, ou se quiser ver os canais de maior audiência, como CBS, ABC e NBC, perceberá que o grande tema do momento para o establishment político-midiático é o das interferência do governo de Vladimir Putin ou de agências ligadas a ele nas últimas eleições presidenciais norte-americanas, através da qual supostamente entregaram à equipe de Trump toda a informação possível, conseguida após hackear ilegalmente os quartéis-generais do Partido Democrata, facilitando a vitória do magnata sobre a candidata Hillary Clinton.

Esse establishment está escandalizado pelo fato de que um país estrangeiro conseguir influenciar as eleições dentro do seu país, prática que agora é denunciada intensamente, com acusações de todo tipo contra o governo russo. Na verdade, é uma tentativa de reviver a Guerra Fria, outrora entre Estados Unidos e União Soviética, agora contra a Rússia.

Quero começar esclarecendo que minha simpatia pelo governo de Putin é a nula, e é o mesmo que sinto pelo governo de Trump. Dito isso, considero uma enorme hipocrisia a postura desse establishment político-midiático, que constantemente apresenta a política exterior de seu país como “a máxima força promotora da democracia no mundo” – tal como a definiu Tom Malinowski, vice-ministro de Relações Exteriores durante a gestão de Obama –, devido ao histórico gigantesco de casos onde o governo federal estadunidense interferiu na política interna de outros países visando a troca de governos, o que o transforma no interventor mais explícito que o mundo conhece, através de ações das mais variadas, desde assassinatos e intervenções militares até o financiamento de partidos e movimentos que buscam derrubar governos ou desestabilizar países.

Em recente edição da revista Counterpunch – talvez a publicação de linha editorial progressista com maior difusão nos Estados Unidos –, o analista político Melvin Goodman listou todas essas intervenções, em missões nas quais se dizia que o objetivo era “defender e promover a democracia”.

Este é um resumo dessa lista, lembrando somente alguns casos mais importantes de intervenção do governo estadunidense no exterior:

– Em 1953, Estados Unidos e Reino Unido atuaram no Irã para expulsar o governo democraticamente eleito de Mohammed Mossadegh.

– Em 1954, o governo dos Estados Unidos apoiou um golpe militar na Guatemala, que instaurou uma das ditaduras mais cruéis que já existiram na América Central. Isso ocorreu durante a presidência do general Eisenhower.

– O mesmo governo de Eisenhower apoiou uma campanha para tentar assassinar o líder panafricanista Patrice Lumumba no Congo, fortalecendo um movimento que depois daria origem a um dos regimes mais brutais que se viram na África no Século XX: a ditadura de Mobutu Sese Seku.

– O governo do presidente Kennedy apoiou a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, financiada pela CIA.

– O governo do presidente Nixon apoiou o golpe militar do general Pinochet no Chile, contra o governo democraticamente eleito do presidente Salvador Allende, com o argumento, assumido por seu ministro de Relações Exteriores, o senhor Henry Kissinger, que “os Estados Unidos não podia permitir que o país sul-americano fosse tão estúpido a ponto de escolher um governo comunista”.
– O governo estadunidense tentou assassinar os presidentes de Cuba, da República Dominicana e do Vietnã, em ações preparadas pela CIA, situação que, quando descoberta, gerou enorme polêmica, a qual forçou o Congresso a apoiar uma lei, em meados dos Anos 70, proibindo a participação do Estado norte-americano em intervenções desse tipo.

– A tal lei, entretanto, foi desrespeitada um muitíssimas ocasiões, como no caso do assassinato e golpe militar contra o Muammar al-Gaddafi na Líbia, promovido pela então Secretária de Estado Hillary Clinton -- que, na época, utilizou orgulhosamente a frase “fomos (à Líbia) por via das dúvidas, mas conseguimos que ele morresse”. Depois disso, o país do norte da África se afundou no caos, tornando-se um dos centros do jihadismo.

– O governo de George W. Bush invadiu o Iraque para derrubar Saddam Hussein, alegando que seu governo possuía armas de destruição massiva – o que hoje sabemos que não é verdade. Neste caso, é importante ressaltar que o governo estadunidense também apoiou o golpe de Estado no Iraque contra Abdul Karim Kassem, promovido por um movimento que contava com um jovem Hussein entre seus líderes, e não é difícil entender que a queda de Kassem facilitaria a chegada de Hussein ao poder, anos depois.

Intervenções na Europa
– Na Europa, o governo estadunidense realizou diversas intervenções, em incontáveis ocasiões. Por exemplo, para desestabilizar a Polônia nos Anos 80, a Geórgia nos Anos 90 e mais recentemente a Ucrânia.

– Sua intervenção na Itália também foi constante, apoiando o governo democrata-cristão, temendo a chegada ao poder do Partido Comunista.

– Na Espanha, os governos estadunidenses, que em certos momentos foram o aliado crucial do franquismo (durante a administração de Eisenhower, por exemplo), promovendo um dos regimes ditatoriais mais sangrentos que a Europa já conheceu. Os Estados Unidos também se intrometeram após a morte de Franco, durante a transição, por medo de que a Revolução dos Cravos, ocorrida em Portugal, pudesse contagiar a oposição democrática espanhola.

Por que tanta sensibilidade com relação à Rússia?
As causas da enorme sensibilidade midiática diante do suposto intervencionismo russo nas eleições estadunidenses são muitas. Como, por exemplo, o desejo por parte do complexo político-militar norte-americano de reviver a Guerra Fria, necessária para justificar o enorme gasto militar que o alimenta. Esse complexo tem tamanha influência nos Estados Unidos que é capaz de liderar sozinho uma campanha assim, e precisa de um inimigo para fazê-la funcionar. A Rússia cabe perfeitamente nesse papel.

Outra razão é a tentativa de expulsar o presidente Trump do poder. É notório o fato de que o magnata é um dos titãs do capital especulativo imobiliário, e que fez grandes negócios na Rússia, em colaboração com a oligarquia local, comandada pelo senhor Putin. E também estão mais que claras as conexões e como elas incluem grande quantidade de trabalhos sujos, característicos da atividade económica empresarial, especialmente da financeira e da imobiliária.

É essa tecla a que vem sendo batida insistentemente pelo establishment do Partido Democrata e por um número crescente de figuras do establishment político-midiático estadunidense, alarmados pelo que eles consideram incompetência e atuar errático por parte do Estado federal, e que acreditam ser razão suficiente para tirá-lo da Casa Branca. Contudo, um impeachment é algo pouco provável, pois o Congresso está controlado pelo Partido Republicano – que por sua vez é controlado pela ultra direita libertária.

A única possibilidade é que este partido perda o controle do parlamento nas próximas eleições, o que também é improvável, já que o Partido Democrata não entendeu ainda o que ocorreu nas presidenciais de 2016. O futuro é muito obscuro para os Estados Unidos.

* Vicenç Navarro é professor de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, Espanha).

 

Comentários   

 
0 #1 Maria Giovanna 22-08-2017 05:36
Este é um tópico é perto de meu coração...
Obrigado! Exatamente onde são seus dados de contacto no entanto?
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